Tanta morte, tanta violência, tantos transtornos... Os seres humanos estão cada vez mais deixando aflorar seus piores lados, porque há um mercado infinito ávido por sangue, por tragédias, pelo lado obscuro da mente humana. Tal a popularidade de seriados como CSI, Criminal Minds, Law and Order, Cold Case... E fatos reais, como a morte da garota Isabella, os casos de seqüestros em porões da Europa e toda sorte de notícias bizarras que ganham os noticiários.
E confesso que também adorava essas coisas. Sou psicóloga e sempre me interessei pelo sombrio e inesperado guardado em cada um de nós. Mas hoje vejo isso como uma imensa falta de empatia e consideração pelas dores e sofrimento alheio. Ver a dor, estudá-la, tratá-la e ir para casa tomar um cafezinho depois, como se nada tivesse acontecido. Talvez eu não consiga ter mais a distância necessária para separar o que é meu e o que é do outro sem me deixar afetar e comover. E casos “pesados” me deixam terrivelmente mal.
Já não consigo mais me colocar naquele lugar de suposto saber... Isso seria vaidade demais para esse momento da minha vida.
Atendi pacientes com histórias dolorosíssimas, realmente tristes e acredito que tenha conseguido contribuir com alívio, acolhimento, compreensão... Mas hoje já não sou mais assim. Não sei se é porque ao ver tanta dor e, em alguns casos, maldade, eu estivesse começando a desacreditar a humanidade, ou se é pelo simples fato de querer cuidar de mim nesse momento. Das minhas dores e amores.
Uma coisa é fato: Não temos como dar para alguém algo que nos falta! E se nos falta compreensão de nós mesmos, não temos como compreender o outro.
Um amigo, também psicólogo, me disse: “Porque você não clinica? As pessoas com as maiores dores são as mais empáticas...”. Algo assim, logo após me contar um caso sobre um paciente pedófilo, que me causou intenso mal-estar.
Não clinico por um simples motivo: Não me sinto forte o bastante, hoje, para dar suporte à pessoas com histórias tão tristes! Não me faria bem, e dificilmente faria bem a elas.
Quero ainda encontrar a beleza nos seres humanos! Ter fé! Ver o lado bom! O que se torna extremamente complicado dentro de um consultório... Se no mundo já existe tanta desgraça, na internet, na televisão, por que farei do meu trabalho um desprazer?
Claro que não tem preço saber que você ajudou um paciente, ouvir um “muito obrigado” com lágrimas nos olhos, receber um abraço intenso de gratidão e alívio. Isso recompensa! Mas você sai de lá destruído, conhecedor de cada detalhe sórdido da personalidade humana...
Um dia isso foi atraente. Mas hoje já não é. Não é mais atraente olhar uma pessoa qualquer nas ruas, ou um amigo, e lembrar histórias ruins contadas por pacientes por conta de gestos, hábitos e costumes.
Acho que nós começamos a procurar o feio em tudo que olhamos. As coisas perdem o encanto, e com ele a possibilidade de serem diferentes, boas.
Que não simpatizo nem um pouco com a psicanálise, não é novidade e, no fundo, culpo um pouco o Freud, e a formação de orientação psicanalítica que tive, por excluir do homem suas potencialidades para o bem, para a melhora, para a cura, e por colocar dentro deles instâncias psíquicas que eles não têm acesso (inconscientes), e, portanto, não têm como lutar e nem prever o que pode acontecer no futuro. Talvez se a minha formação tivesse sido humanista isso seria diferente hoje e eu tivesse uma visão mais otimista.
Se sou uma psicóloga ruim? Absolutamente não! Pelo contrário, sempre recebi muitos elogios pelos meus atendimentos, na faculdade fui escolhida para expor meus casos para alunos de anos anteriores, minhas notas para as atividades práticas variavam entre 9,0 e 10,0, sempre fui extremamente ética com meus pacientes, sempre acolhi suas dores... Apenas quero ver o belo nos seres humanos, e voltar a acreditar que um mundo bom é possível!
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